terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Das Trevas para a Luz - final


Indo pra casa de recuperação numa Kombi caindo aos pedaços estávamos o Pr Wellinghton Antunes, fundador e diretor do trabalho do Desafio Jovem Peniel na época, eu, sentado no meio e meu acompanhante, o Dr Geraldo, também recuperado na entidade.
Haviam dito, antes de eu sair para Ariquemes-RO, que com uns quinze dias no programa eu poderia sair recuperado do vício. Então, com o orgulho do esforço próprio, tencionando ficar no máximo uns 10 dias, perguntei ao pastor qual o tempo mínimo que alguém já havia sido recuperado. Com toda a sua simplicidade e calma mineira ele respondeu: "- O tempo mínimo no programa é de seis meses".
Quase pulei da Kombi. Seis meses me parecia uma eternidade. Mas me calei pensando em dar o fora na primeira oportunidade.
Ao chegar no sítio tive uma sensação de miséria e abandono como nunca na vida. A casa de madeira era velha e feia, não havia luz elétrica e apenas um gerador de energia que funcionava 3 horas por noite quando não resolvia dar xiliques. Não havia água encanada. O banho era de canequinha com água meio barrenta retirada do poço que, quando secava, nos fazia andar mais de 150 metros para buscar água de balde num poço vizinho.
Não sei como me submeti àquela situação. O desespero e a vontade de sair das drogas acho que me levaria a encarar qualquer coisa, afinal eu estava a um passo do suicídio.
Depois de ser recebido e acomodado pelo obreiro Bebeto, a gentileza em pessoa e já falecido, aparelhado com uma enxada enorme e pesada, fui conduzido para a terapia ocupacional  com os outros internos.
Ao chegar no meio da turma que tinha umas sete pessoas o meu desespero aumentou. Um deles cantava um hino evangélico, outro gritava "Aleluia!" e "Glória à Deus!" e um outro virou pra mim e disse: "- Seja bem-vindo em nome de Jesus. Aqui Jesus vai mudar a tua vida".
Quase pirei e pensei: "Meu Deus! Vim parar no meio de gente mais doida do que eu! Isto não vai dar certo".
Eu não gostava de crentes. Achava-os um bando de alienados (e alguns são mesmo). Tenho que dar o fora logo daqui, pensei.
Mas depois de alguns dias comecei a notar algo diferente na maioria dos internos. Eles eram pessoas que tinham uma alegria verdadeira e uma paz que eu sempre havia procurado e nunca encontrado. Comecei a invejá-los. Quando perguntados atribuíam tudo ao seu relacionamento pessoal com Jesus. Comecei a ficar curioso. Eu tinha religião mas não era nada parecido com aquilo.
Uma tarde, quando todos estavam nas tarefas, saí sem ser notado e entrei no alojamento. Estava só e parece que havia uma atmosfera eletrizada, como um parto prestes a acontecer. Despido do meu orgulho como alguém que se entrega ao cirurgião, e escondido entre os beliches, ajoelhei-me no canto do alojamento e fiz o que acho ter sido a primeira oração real da minha vida. Eu disse: "Deus, se tu existe de verdade, muda a minha vida. Arranca essa angústia da minha alma e me faz uma pessoa diferente!" e arrematei, hoje grato por Deus não levar em consideração a nossa ignorância teológica: "-Eu te dou vinte dias, Deus. Se em vinte dias não acontecer nada diferente na minha vida eu vou embora daqui e nunca mais quero saber de nada a teu respeito!"
Não sei direito como aconteceu mas dois dias depois eu acordei cantando um hino. Desconfiei que era influência do ambiente e até me vi brega e "decadence" mas não importava. Havia alegria em mim. Um fio de esperança balançava sobre a minha vida.
Nos dias que se seguiram, nos momentos de leitura bíblica e meditação, as palavras da bíblia tinham um outro sentido. Pareciam falar diretamente comigo e eu tinha fácil entendimento delas, e eu já havia lido a bíblia antes. Parecia que Deus falava sentado ao meu lado ensinando o sentido verdadeiro de cada passagem. Eu vibrava, como alguém que havia encontrado um tesouro.
Quando descobri então sobre o louco plano da salvação, entreguei-me completamente à esse Senhor amoroso e compreendi que algo tão valioso não poderia ficar escondido comigo...o mundo deveria saber disso.
Revelações novas continuavam vindo e continuam até hoje e as conhecidas se aperfeiçoam e ganham um novo enfoque e perspectiva a cada dia. O interessante que na minha turma de internos as discussões e desavenças não eram por coisas comuns da vida e sim por interpretações divergentes da bíblia. Grande turma aquela. Alguns tornaram-se missionários, outros pastores e servos fiéis.
Tudo o que relato aqui é de forma resumida. Muitas coisas relevantes aconteceram e que ocupariam muito espaço e infelizmente as pessoas não têm mais paciência para ler um texto muito longo. Quando relato meu testemunho nas igrejas consigo expor de forma mais diversificada e completa.
Paralelamente Deus fazia a obra na minha familia. Ao terminar o programa e retornar para casa encontrei minha esposa convertida e freqüentando uma igreja batista. Eu havia voltado pra dizer que sairia pelo mundo para ser um pregador da Palavra de Deus, sem salário e totalmente dependente de Deus e que eu iria começar pelo centro de recuperação pois lá carecia de obreiros. Temi pela resposta dela mas ela disse: "-Vou com você pra onde você for". (Yesssss!!!)
Estamos há 17 anos trabalhando com recuperação e tívemos o privilégio de fundar e dirigir igrejas e centros de recuperação e vermos centenas de pessoas libertas e salvas e também vê-los crescer e tornarem-se servos abençoados, pastores e missionários. Muitas coisas "inacreditáveis" aconteceram neste tempo que ocupariam um livro para serem relatadas e com o tempo serão.
Bendito seja o Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo que nos fez filhos e nos vocacionou e nos ungiu para tão nobre trabalho no qual tudo proveu e nunca nos deixou faltar coisa alguma.
A Ele seja a Glória eternamente!

Pr Julio Soder

2 comentários:

Roberta Monteiro disse...

Ei Pastor,quando entrei para a Igreja batista Peniel do Bairro Amazonas, já conhecia por alto a sua história, e quando eu o vi pregando pela primeira vez eu pensei. Deus que homem é esse, que servo é esse que quando agente olha não temos vontade de parar de olhar, tamanha glória que vemos nele... E depois de acompanhar o seu testemunho só me fez ainda mais ver como Deus te usa eu agradeço todos os dias a Deus por ter me dado a oportunidade de conhece-lo, e poder dizer MEU QUERIDO PASTOR.
Que Deus continue te usando AMADO SERVO.
Um grande Abraço
Roberta Monteiro

Alexia disse...

Glória a Deus pela sua libertação total e sua conversão, fazendo do senhor um instrumento dEle. Bebeto foi meu amigo por muitos anos e sinto saudades. Acho que o senhor deveria publicar um livro contando detalhadamente tudo que passou, pois ajuda principalmente quem está desanimado, sofrendo de depressão ou enfrentando o mesmo problema de vício em drogas, mas quer libertação. Escreva pra edificar a igreja (aumentando a fé dos irmãos) e todos os que lerem. Um abraço afetuoso em Cristo.