sábado, 31 de outubro de 2009

Tentativa de Suicídio no Centro de Recuperação


Estava quase cochilando, depois do almoço de domingo, quando Ernanio ligou despertando-me imediatamente:   -"Pastor, o Ledir tomou veneno!".

Acho que era por volta do ano de 2002, na cidade de Cacoal, em Rondônia, região conhecida como "Amazônia Legal". Eu dirigia os programas terapêuticos da Fundação Vida Nova, uma entidade filantrópica que existia pela graça de Deus através do amor, trabalho e sustento de Credival e Raquel Carvalho, um casal de médicos, autênticos cristãos a serviço do Reino de Deus.
O centro de recuperação era na saida da cidade, já zona rural. As condições eram precárias, a estrutura deficiente e os recursos escassos. Apesar de já haver sido emitida uma regulamentação pela Anvisa, as comunidades terapêuticas ainda estavam em fase de adaptação e, além disso, os orgãos fiscalizadores, juízes, ministério público e até a prefeita, davam graças a Deus por existir gente como nós, que se importava, amava e sabia como fazer a recuperação, tirando das costas deles esse trabalho, feito voluntariamente e sem recursos públicos.

Ledir era viciadão; tinha 22 anos. Estivera internado conosco muitas vezes. Saia, depois de algumas semanas internação, sem concluir o programa, e retornava só de calção e alucinado, embora eu tenha dito a ele, em todas as vezes que ele saira, que nunca mais o receberia. "Conversa de pastor".
Nesta última vez que ele retornou as alucinações demoraram um pouco mais a passar. Ele havia balbuciado algumas vezes que alguém "estava tentando matá-lo" e "vou me matar". Nós, eu e os monitores, já tínhamos ouvido aquilo dele muitas vezes e não demos muita atenção.
Naquele domingo, após o almoço, Ledir passou por Ernanio, o monitor de plantão, e disse: "-Tomei veneno". Ernanio, conhecendo-o, não ia dar atenção mas sentiu o cheiro da química forte e confrontou-o imediatamente. Então saiu apressadamente em direção à casinha de ferramentas e encontrou um frasco vazio de Karatê, um piretróide, organoclorado, que não tem antídoto e imediatamente me ligou.
Apesar das condições precárias não havia desculpas para uma falha tão grande  na segurança de pessoas que não eram responsáveis por seus atos na situação em que estavam. Ninguém da equipe terapêutisa sabia da existência daquele produto e a porta da casa de ferramentas não tinha tranca.

-"Ponha o Ledir no carro e leve voando para o hospital. Te encontro lá!"

Ernanio teve o bom senso de levar o frasco vazio. Encontrei-o na portaria. Ele parecia assustado.
Entrei na sala de emergência e senti a tensão do ambiente. Havia quatro enfermeiras e o médico atendendo o Ledir; três delas tentavam segurá-lo enquanto uma fazia a lavagem estomacal. Ele era um rapaz forte apesar de usuário de drogas; foi difícil segurá-lo.
O Dr Paulo Elifas, médico de plantão, morador antigo da cidade e muito respeitado, chamou-me de lado e disse: -"O senhor pode avisar a familia e preparar-se para o pior. Estou apenas fazendo o procedimento de praxe mas isso não vai adiantar muito devido ao tipo de substância, o volume e pelo tempo que ele ingeriu. Não há mais o que fazer".
Naquele momento senti um peso enorme na alma. Confesso que não pensei somente na vida do Ledir; pensei também na repercussão que ia dar se ele morresse; pensei no processo que daria sobre a entidade e sobre mim; eu era o responsável; pensei no nome dos cristãos e da igreja, pensei no centro de recuperação fechando...o que seriam daquelas vidas. Pensei em tanta coisa...mas eu era o responsável; tinha que fazer alguma coisa!

De súbito eu disse ao médico: -"Pois o senhor faça tudo o que tem que fazer. Eu vou pra casa clamar ao meu Deus e ele mostrará que tem poder!". O Dr Paulo Elifas fez um muxôxo de indiferença; ele não cria em nada daquilo que eu disse e até eu tinha minhas dúvidas mas era o que eu sabia, podia e devia fazer.

No carro de volta pra casa eu delirava: -"O que eu fui dizer?".

Em casa clamei! Clamei e reclamei! Clamei pela minha vida,. pela do Ledir, pela obra, e até por uma provável fé futura da equipe do hospital pois eu havia dito em alto e bom som que Deus me atenderia. Esbravejei: -"...e agora eu já disse, eu já falei que O Senhor cura!".
Entreguei...eu fizera tudo que sabia e podia. Descansei. Agora era esperar.

Dois dias depois Ledir saiu andando e rindo do hospital. Tratei-o afetuosamente mas depois dei uma bronca nele pelo susto que nos deu.
O Dr Paulo Elifas hoje é convertido e diácono da Primeira Igreja Batista de Cacoal-RO.
A última noticia que tive do Ledir é a de que ele era obreiro numa casa de recuperação em Ji-paraná-RO.

Pr Julio Soder

7 comentários:

bodão disse...

Bem me lembro Pr. Júlio dos muitos sustos que o senhor teve por causa daqueles jovens e de como Deus sustentoua tudo e a todos naquele período!

Danilo Fernandes disse...

Pastor Julio! Que relato impressionante! Eu estou aqui num misto de sentimentos que me apontam direto para Jesus!

Glorias!

vOU LEVAR COMIGO PARA O GENIZAH

Leonardo Gonçalves disse...

Que horas mais intensas você viveu, meu amigo! E que belo testemunho!

Embora nunca tenha sido obreiro interno, comecei meu ministério ajudando um pastor batista numa casa de recuperação, "Desafio Jovem", em Cambuquira - MG, quando eu ainda tinha 16 anos. Eu ia pra lá ensinar violão, e acabei sendo "promovido" pelos internos a "pregador e professor" nos cultos da capela. Nunca havia pregado antes!

Neste mesmo ano, alguns jovens e eu reabrimos uma antiga congregação na cidade (fechada por falta de pastor) e começamos a evangelizar o bairro. A congregação nunca mais fechou desde então. Também reativamos um trabalho na roça, num lugar chamado "Adobes"... A gente ia de bicicleta, visitando os irmãos pelo caminho.

Deus colocou em meu coração o gosto pelo evangelismo. Sempre que tinha folga do serviço, lá estava eu com meus folhetos pelas ruas da cidade, na maioria das vezes, sozinho. Uma irmã que trabalhava no hospital da cidade me permitia orar pelos doentes nos quartos e compartilhar a Palavra, o que eu fazia com regularidade. Saindo dali, eu ia direto para o Asilo, onde fazia culto com os velhinhos. Alguns se entregaram a Cristo e viveram seus últimos instantes na terra ao lado do Mestre.

Dois anos depois eu estava em Rio Gallegos, na patagônia, trabalhando junto com o pastor (na época diácono... para Deus, um apóstolo!) Edilson Steiger, plantando "minha" primeira igreja. Desde então é isso que eu faço.

O Desafio Jovem foi uma escola para mim. Tenho muita saudade daqueles dias, do futebol no domingo à tarde, dos cultos avivados na capela, das aulas de violão e até da sopa aguada que serviam durante a vigília. Tenho saudade também da rapazeada. Muitos morreram jovens, outros servem a Deus com a mesma paixão daquela mulher por seus muitos pecados.

Louvo a Deus por existirem pessoas como você, Júlio. Vocês foram meus mentores, meus professores... Com vocês eu aprendi o valor que tem uma alma. Foi lá no Desafio Jovem Liberdade, em Cambuquira - MG, que eu pude entender o que significa a expressão "uma alma vale mais que o mundo inteiro". Foi lá que eu entendi o que Jesus queria dizer quando falou de um pastor diferente que deixa 99 ovelhas para ir buscar aquela que se perdeu. São ministérios pequenos aos olhos humanos, mas de enorme valor para Deus.

Paz e bem!

Leonardo.

Resumo da ópera disse...

Testemunho incrível! Sensacional!
Ser liberto desse tipo de vício é realmente um milagre...
E ser ponte para esse tipo de milagre deve ser um grande privilégio! Deus o abençõe!

Maya Felix disse...

Caro Pastor,

Muito legal, esse testemunho é edificante e animador: temos histórias com final feliz, sim, quando esperamos em Jesus e clamamos a Ele. Obrigada, e um abraço.


Maya

Thiaguinho da kátia disse...

Nóóóóó, aterrorizou a equipe do hospital, tem enfermeira sem dormir direito até hoje espantada com o poder de DEUS que age no impossível... Show Pastorzão, é por essa e mais inúmeras que quando eu crescer quero ser igual o senhor.... Grande abraço.

Antenor DeSouza disse...

Maravilhoso testemunho Pastor Julho, e com alegria imensa no coracao que deixo aqui esse comentario ainda mais por ter sido um dos recuperandos sob sua responsabilidade em Ariquemes RO. Nosso Deus continua de forma tremenda se revelando aos homens e agindo na vida da humanidade atraves de homens que professao a fe Nele com Palavras e Com atitudes que em alto e bom tom ecoa na eternidade... gerando certeza de termos um Deus Unico, Verdadeiro, Invisivel MAIS REAL!!!. Que Deus te conserve em Graca e Paz Pastor. Saudades.